Sangria no sistema de freio: como funciona e por que é essencial?
A sangria no sistema de freio serve para duas coisas ao mesmo tempo: tirar o ar que entrou no circuito e substituir o fluido velho. As duas importam, porque ar comprime e fluido saturado de umidade ferve antes da hora.
A ordem do procedimento não muda, e é onde a maioria dos erros acontece: pedal no fundo, abre o purgador, fecha o purgador, e só então solta o pedal. Inverter os dois últimos passos faz o sistema puxar ar de volta.
Por que fazer a sangria no sistema de freio
O fluido é higroscópico, ou seja, absorve umidade do ar através das mangueiras e da tampa do reservatório, mesmo com o carro parado. Essa água faz dois estragos:
- Baixa o ponto de ebulição. Um DOT 4 novo ferve a 230 °C; com cerca de 3,7% de água ele passa a ferver a 155 °C. Fluido fervido vira vapor, e vapor comprime, o que derruba o pedal justamente em descida de serra.
- Corrói por dentro cilindro mestre, pinças e cilindros de roda, soltando resíduo que trava componentes.
Já o ar entra por serviço mal fechado, por sangria incompleta ou por onde o fluido está saindo, e só a sangria no sistema de freio o remove. As diferenças entre tipos de fluido estão em DOT 3, DOT 4 e DOT 5.
O que preparar
- Fluido novo e lacrado, na especificação do fabricante. Frasco aberto absorve umidade na prateleira, por isso não se guarda.
- Mangueira transparente que encaixe firme no purgador, e recipiente para o fluido velho.
- Chave de purgador do tamanho certo, de preferência estriada, para não arredondar a cabeça.
- Luvas e óculos, e proteção para a pintura, já que o fluido ataca tinta em minutos.
O passo a passo da sangria no sistema de freio
- Complete o reservatório até o máximo e mantenha acima do mínimo o tempo todo. Reservatório que seca coloca ar novo no circuito e obriga a recomeçar.
- Limpe em volta do purgador antes de encaixar a chave, para não empurrar sujeira para dentro.
- Conecte a mangueira e faça um trecho subindo antes de descer ao recipiente. A curva com fluido dentro impede o retorno de ar.
- Comece pela roda mais distante do cilindro mestre, seguindo para a mais próxima, salvo ordem específica no manual do veículo.
- Peça o pedal no fundo e mantenha.
- Abra o purgador cerca de meia volta, com o pedal pressionado.
- Feche o purgador antes de o pedal ser liberado. Esta é a etapa que não pode trocar de ordem.
- Solte o pedal devagar e repita, conferindo o reservatório a cada três ou quatro ciclos.
- Siga até sair fluido limpo e contínuo, sem bolha, em cada roda.
- Aperte o purgador no torque, recoloque a capa protetora e confira vazamentos.
O cuidado que quase ninguém toma
Não afunde o pedal até o fim do curso. Em sistema com quilometragem, a parte do cilindro mestre que nunca foi percorrida acumula depósito e corrosão. Levar o pistão até lá rasga o vedante — e aí um cilindro que estava bom passa a vazar por causa do serviço.
A solução é simples, porque basta um calço sob o pedal limitando o curso, ou orientar o ajudante a parar antes do fim. O quadro do cilindro comprometido está em cilindro mestre vazando.
Carro com ABS muda o procedimento
Parte do fluido fica retida dentro do módulo hidráulico, onde a sangria convencional não alcança. Em muitos veículos é preciso acionar a bomba do ABS pelo scanner durante o processo, seguindo a sequência que a ferramenta indica.
Sem isso, o fluido velho permanece no módulo e o pedal continua esponjoso mesmo depois de todo o circuito ter sido sangrado. O procedimento específico está em sangria de freio em sistemas com ABS e ESC.
Vale lembrar também dos veículos com freio de estacionamento eletrônico: as pinças traseiras exigem modo de serviço pela ferramenta, conforme freio EPB.
Métodos de sangria no sistema de freio
- Com ajudante — o clássico, e o que dispensa equipamento. Exige disciplina na ordem de abrir e fechar.
- Por gravidade — abre-se o purgador e deixa o fluido descer sozinho. Lento, mas útil para complementar.
- Por pressão — um equipamento pressuriza o reservatório. É o mais rápido e o mais consistente, e permite trabalhar sozinho.
- A vácuo — puxa o fluido pelo purgador. Funciona bem, embora possa aspirar ar pela rosca do purgador e confundir a leitura.
Teste antes de entregar
Com o motor ligado, pise o freio e mantenha pressão firme por trinta segundos. O pedal deve ficar alto e não pode afundar nada nesse período.
Confira ainda a altura do pedal comparada à de antes, a ausência de vazamento nas conexões e o nível estável no reservatório. Só então faça o teste de rodagem, começando devagar. Se o pedal continuar esponjoso, o quadro está em pedal do freio borrachudo.
Com que frequência fazer a sangria no sistema de freio
A referência é o manual do veículo. Em carro de passeio o intervalo mais comum é a cada dois anos, contado por tempo além da quilometragem; em uso severo e em veículo comercial, o prazo costuma cair para um ano.
Fora do calendário, a sangria é obrigatória sempre que o circuito for aberto: troca de pastilha com recolhimento de pistão, substituição de pinça, mangueira, cilindro ou tubulação.
Perguntas rápidas
Qual a ordem correta da sangria no sistema de freio?
Pedal no fundo, abrir o purgador, fechar o purgador e só então soltar o pedal. Se o purgador ficar aberto quando o pedal retorna, o sistema puxa ar de volta e o trabalho recomeça.
Por qual roda começar a sangria?
Pela mais distante do cilindro mestre, seguindo até a mais próxima, salvo indicação diferente no manual do veículo. Alguns modelos com circuito diagonal têm sequência própria.
De quanto em quanto tempo se faz a sangria?
No intervalo do manual, em geral a cada dois anos em carro de passeio e anualmente em uso severo. Além disso, ela é obrigatória sempre que o circuito for aberto para qualquer reparo.
Por que não se deve afundar o pedal até o fim?
Porque a região do cilindro mestre que nunca foi percorrida acumula depósito e corrosão. Levar o pistão até lá rasga o vedante, e é assim que um cilindro em bom estado passa a vazar depois do serviço.
Carro com ABS precisa de scanner para sangrar?
Na maioria dos casos, sim. Parte do fluido fica retida no módulo hidráulico e só sai com a bomba acionada pela ferramenta, senão o pedal continua esponjoso mesmo com o restante do circuito sangrado.





